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A FILA


Sempre tive ódio de filas. Acho um verdadeiro desperdício de tempo e paciência, sem contar as dores nas pernas e outros males que eles causam.
Mas depois que me aconteceu esta história, o meu ódio pelas filas triplicou. 

Pois bem, tudo aconteceu certo dia quando inevitavelmente tive que enfrentar uma fila. Para encurtar a história, não vou aqui entrar em detalhes do porque ou para que da fila. Apenas era a fila. Naquele dia acordei cedo. Alias de madrugada. Começava a clarear quando cheguei ao local. Na calçada, já haviam cinco pessoas em pé ao lado da porta. Começo da fila. 

Ao ver aquelas cinco pessoas calmas e sonolentas fiquei pensando em como sou pessimista. Pensava encontrar uma grande fila e, de repente apenas algumas pessoas. De início fiquei olhando o movimento da rua. Depois de uma meia hora, encostei o ombro na parede e tirei da bolsa meu livro de leitura especialmente escolhido para a ocasião. 

A desgraça começou aí. Na pressa, troquei os livros e acabei levando o livro de minha esposa cujo título é "Como ser mãe". Disfarçadamente escondi o livro em meio a papelada. Que fazer! La pelas oito horas a fila crescia assustadoramente, já dobrava um quarteirão atrás de mim. Eu, nestas alturas, feliz por ter acordado cedo e por ser o sexto da fila. 

Minha alegria durou até as oito e dez, quando foram abertas as portas. Dentro do prédio havia uma fila ainda maior que a de fora. As pessoas haviam dormido ali, sem sair da fila é claro. As dez da manhã o alvoroço era geral. Gente xingando... todo mundo falando ao mesmo tempo e nada de abrir o guichê. Eu, casualmente me encontrava entre duas senhoras amigas, uma na frente outra atrás. Por cima de meu ombro tentavam a altos gritos colocar a situação da vida alheia em dias. 

Para fugir daquele barulho infernal puxei novamente do livro "Como ser mãe". Tinha encadernação com capa dura de modo que não dava para virar a capa para trás e esconde-la. Assim que li a primeira palavra alguém gritou: - Oi mãe! Guardei o livro rapidamente. La pelas dez, passou vagarosamente a moça que ia abrir o guichê. Quase foi linchada pelos olhares da multidão desesperada.

- Bom, pelo menos a moça já chegou - disse alguém. Esperança vã. Depois de um tempo que me pareceu longo demais, finalmente a moça sentou-se em seu lugar. Novas esperanças. Primeiro ela começou a trocar a fita ou algo assim na maldita máquina calculadora. Não conseguiu, foi chamar outro, por sorte, esse era um pouquinho capacitado e, depois de uns quinze minutos conseguiu dar um jeito na máquina. 

Nessas alturas as pessoas já estavam roxas de ódio, seriam capazes até de praticar antropofagia ou qualquer coisa semelhante com a moça e ajudantes. Finalmente, guichê aberto e a fila arrastando-se lentamente. O calor era insuportável. Minha camisa logo ficou ensopada. Outros males começaram a manifestar-se. Primeiro foi a fome. Depois a vontade de ir ao banheiro. Me aguentei o mais que pude. 

Quando já não suportava mais, virei-me para a mulher que estava às minhas costas e disse: 

- Dá para guardar meu lugar um instante? - Claro - disse ela. Corri em direção aos banheiros. Assim que entrei no corredor. Fila, para usar o sanitário. Voltei quase correndo, atravessei o saguão e sai correndo à rua. Atravessei a Praça da Sé e entrei no banheiro do metro. Quando voltava aproveitei para tomar um café e preparar-me para a longa tarde.

As mulheres continuavam no mesmo lugar. A fila não dera nem um passo. A moça do guichê sumira. Hora de almoço. Algumas pessoas aproveitaram para comprar lanches dos vendedores ambulantes. Também aproveitei para comprar um cachorro quente. Nunca vi um cachorro quente tão levado a sério. O gosto acho que era mesmo de cachorro. 

 De toda maneira, o lanche revigorou minhas energias e a disposição para esperar o interminável banquete da moça do guichê. 

Para surpresa geral, ela até que não demorou muito. A uma e dez da tarde entrou em sua cabine. Quando já mexia na papelada, indício de que ia iniciar o expediente, foi que aconteceu a calamidade: Era loira, alta, para dizer a verdade; linda. Só que falava demais. Juntou-se à moça do guichê e começou a desfiar uma conversa interminável, intercalada com risos, gestos e gritos. 

Para nós da fila, sua beleza decaia a cada minuto que passava. Depois de uns dez minutos, já não víamos a loira; seus cabelos transformavam-se num penacho horroroso, seus olhos eram frios, desagradáveis. Sua voz estridente e seus gestos vulgares e desajeitados. Não ficamos só nisso. Começamos a odiar todas as loiras, todas as mulheres faladeiras. Ódio do mundo, da vida. Creio que se a loira não saísse logo de lá correria risco de vida, tamanho era nosso ódio. 

Depois que ela saiu, tudo voltou ao normal. A fila arrastava-se lenta, morosa, inquieta... De vez em quando, alguém puxava conversa com a moça do guichê. Nosso ódio crescia, crescia ... Impaciência, desespero, raiva, eram palavras que giravam na cabeça de todos. 

Ao final da tarde, eu já não me aguentava em pé. Doía as pernas, os sapatos apertavam, a barriga roncava. Aproximava-se minha vez. Apenas umas quinze pessoas me separava daquele lindo troféu, conquistado a duras penas "a moça do guichê". De repente, dei-me conta de como era linda. Uma verdadeira joia. Sorriso franco, olhos castanhos claros, lindos cabelos. E quanto mais eu me aproximava, mais linda ela ficava. Meu desespero e ansiedade assim a criavam e colocavam num pedestal nunca visto. 

Meu cérebro levado pela fome e o desespero criava e recriava. Poucos metros me separavam daquela joia, tudo o que eu mais queria naquele dia; conversar com a moça do guichê... Ser atendido por ela e voltar feliz para. casa. 
  
Naquele momento de grande esperança, quando poucos metros me separavam do guichê foi que apareceu o guarda. Vinha distribuindo um cartãozinho numerado, a senha, a cada pessoa da fila. Quando entregou o último deles à mulher que estava à minha frente, olhou para mim com um sorrisinho e disse: 

-Sinto muito, este foi o último. Só as pessoas daqui para a frente é que serão atendidas hoje. 

Meu mundo desmoronou. Minhas pernas já fracas, começaram a tremer. Não lembro de mais nada. Quando recobrei a consciência, estava preso, ferido e jogado num banco de uma delegacia. Dizem que enlouqueci. Agredi o guarda, a moça do guichê, e quase cheguei a destruir todo o estabelecimento. Fui processado. Passei vários meses em hospitais psiquiátricos. Estou me recuperando. Ainda sofro alguns acessos quando vejo mais de duas pessoas ou objetos enfileirados. Por isso mesmo, acho que ninguém vai ler esta história, pois estas letras que escrevo, enfileiradas no papel me provocam. Sinto ódio de sua sequência monótona, do ritmo e de suas curvas, da maneira como são colocadas no caderno, todas me lembram filas. Creio que a qualquer momento irei destrui-las uma a uma com violência e ódio cruel.

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