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A ÚLTIMA CASA


Hoje visitei minha nova casa, que será a última. É bem pequena na verdade. Paredes brancas, jardins floridos na frente, árvores dos lados, crianças correndo no quintal e muita paz.
Daqui ouve-se o murmúrio do mar, ou percebe-se o silêncio total. Vê-se as estrelas, ou a escuridão da noite. Aqui tudo é possível, tudo é grandioso, diferente. Vê-se as coisas por outro ângulo. O tato é diferente. Não só se sente, mas se penetra , se amplia, se aprofunda. A visão deixa de ser finita. Vai muito mais além. Penetra no sol, atravessa cada grão de areia e percorre todos os cantos do universo. Nada mais pode se ocultar. 

Para viver nesse lugar vale a pena deixar tudo. Abandono a família, os amigos e inimigos. Deixo para trás todos os lábios que beijei. Todos os olhares, todas as palavras que disse e as que fiquei por dizer. Todos os apertos de mão, todas as carícias que tive e as que sonhei. 

Só quero estar aqui, preso entre quatro paredes, único caminho para a eternidade. Chega finalmente o dia da mudança. Muita confusão como convém. Dessa vez não quero levar toda a tralha que possuo; mesmo porque não terei espaço suficiente em minha nova casa. 

Os parentes brigam pelos meus pertences. Alguns choram à minha partida e prometem me visitar com frequência. Tudo é confusão nesse dia. As quatro da tarde chega a transportadora. 
Estou vestido impecavelmente para ocasião. Saímos. Dou adeus a minha velha casa. Na esquina, olho pela última vez aquela rua onde fui feliz num dia, infeliz noutro. Alegre num dia, triste noutro; coisas da vida. 
  
Acompanhando minha mudança vem alguns poucos parentes, amigos e inimigos. Alguns tristes, outros; um sorriso por dentro. 

Cai uma chuva fina nos vidros do carro. Despeço-me das ruas molhadas, dos prédios, das calçadas movimentadas, dou adeus às árvores, aos postes de luz, aos ônibus e aos cães vira-latas que encontro pelo caminho. Quero parar num bar para um último cafezinho de rua; ficar com olhos sonhadores por entre a fumaça como tantas vezes o fiz.. Sentir o calor do líquido na garganta e da xicara nas mãos, como o calor de tantas mãos que apertei. 

Dizem que já é tarde que não posso parar. Contento-me em despedir-me com um olhar. Tenho que despedir-me de tudo, pois não pretendo mais sair de casa. Estou muito velho. Nada mais me interessa, só a eternidade do silêncio... 

Chegamos. Atravessamos os amplos jardins. Ao longe, avista-se o telhado de minha casa. É nova, brilhante. Toda a família se reúne. Despedem-se de mim com muita cerimonia. Prometem-me visitas constantes. E se eu precisar de alguma coisa... cuidados com o jardim... uma nova pintura nas paredes... 

Finalmente só. É noite. Contemplo as estrelas. A paz me invade. Nada mais me aborrece. Não sinto mais nem calor, nem solidão, nem angústias. Estou completamente feliz. Sempre sonhei morar só. 

Não ouvir queixas. Não ter responsabilidade de nenhuma espécie, apenas existir, fundir-me às estrelas. Já faz muito tempo que estou morando aqui. Logo quando mudei-me, meus parentes me visitavam com frequência. conversavam muito. Contavam suas magoas e alegrias, as vezes até choravam e me pediam para voltar. Diziam que estavam morrendo de saudades e que a vida não era mais a mesma sem mim. Elogiavam meus feitos. Me diziam muitas palavras de carinho e me pediam conselhos. 

Na hora da despedida era uma choradeira... Recomendações. Fique com Deus ...

Há mais de dez anos que estou morando aqui. Com o passar do tempo as visitas foram se escasseando. Agora eles vem apenas uma vez por ano, num dia de festa em que todo o condomínio fica alegre e triste ao mesmo tempo. 

As vezes trazem novos membros da família. Netos, sobrinhos, genros... Parece que não há mesmo meios de uma pessoa livrar-se dos parentes, dos amigos, das pessoas, da humanidade. 

A infelicidade aconteceu-me outro dia, quando eu já me considerava plenamente realizado em minha solidão, eis que numa tarde de domingo chega toda a parentada e amigos. Vieram trazer minha esposa que resolveu vir morar comigo; toda a história se repete, novas visitas. Adeus paz. 

Passaram-se várias décadas. Outros membros da família vieram juntar-se a nós. Alguns por decisão própria, outros levados pelas ciladas da vida. A verdade é que a casa esta cheia novamente. Parece que todos vieram morar aqui. As ruas estão cheias, as alamedas estão cheias, amigos, inimigos, todos estão aqui.

Ultimamente tem vindo tanta gente que a prefeitura viu-se obrigada a ampliar nosso condomínio. Daqui posso ver grande placa com as letras pintadas em vermelho; "Obras de Ampliação do Cemitério".

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