Pular para o conteúdo principal

MANIA DE DOENÇA

A Patrícia foi quem insistiu para que viéssemos visitar uma de suas amigas. Por mim, eu ficava em casa dormindo, mas como numa noite romântica e calma depois de uns tragos eu lhe prometi o céu e as estrelas, acho que fazer-lhe um pequeno gosto como lhe dar um carro ou vir visitar sua amiga não é nada demais.

O pior é que essa gente só vive doente. Tem mania de doença e isso me da aflição. Não é que eu não goste de doença... Uma doençinha de leve até que vai bem, principalmente lá em casa onde tenho uma cama confortável e uma enfermeira linda que me cobre de cuidados, que vão desde sopinha na boca até beijos. Mas esse pessoal aqui é mesmo da pesada. Doença aqui é rotina e cemitério é seu grande sonho.

Interrompo meus pensamentos. Chegamos. Pátricia aperta a campainha. Ninguém atende.

- Aperta com mais força Patrícia. Nada.

- Vai ver que morreram todos - digo. Patrícia faz cara feia e aperta novamente.
Sua amiga abre a porta.

- Desculpem a demora, é que eu estava na cama, ando meio doente - diz. Eu já sabia, penso.

Cumprimenta Patrícia efusivamente. Me estende uma mão magrinha, leve como uma pena . Tenho medo de apertá-la e ela se quebrar toda, apenas a seguro de leve, com o maior cuidado.

- Ah! Mas então é você o escritor? Não imagina minha satisfação, li todos seus livros!

Grande coisa, são apenas dois, penso.

- Mas de qual deles a senhora gostou mais - Tento ser gentil.
- Aquele dos médicos, cuja a história se passa num hospital - Mas entrem, é uma alegria recebe-los.

Entramos. A sala é ampla. Paredes brancas, teto alto de onde desce um candelabro com lâmpadas em forma de velas, uns poucos quadros com algumas paisagens antigas, móveis macios e uma estante de vidro onde se vêem peças de cerâmica, bonecas de porcelana, alguns outros enfeites e aqui e acolá uma caixinha de remédio.

- Me dão licença um instantinho, tenho que tomar meu remédio - retira-se.
- Já começou - digo baixinho a Patrícia.

- O que?

- Nada, não é nada.

Logo volta. É alta, magrinha, cabelos compridos, rosto longo, olhos fundos e muito agasalhada. Tem medo do resfriado, imagino.

- Mas onde está o resto da família? - Pergunta Patrícia.

- O José está internado. Minha mãe está lá em cima de cama e as meninas estão na escola.

Começamos um longo papo sobre a situação dos hospitais, mau atendimento, falta de recursos... O papo é meio chato mas como eu adoro malhar as irregularidades do sistema, ela acaba me convencendo. Quando vejo, estou empolgado, só falto por fogo no hospital das clinicas e outras coisas do gênero. E olhem que não tomei nem um gole... acho que nessa casa não tem. O negócio aqui é remédio. Deve ter todos os tipos, para todos os males.

Com a conversa fiada me dá fome. Se pelo menos ela parase um pouquinho... Preparasse um chá com bolachas.

Minha barriga começa a roncar. Falo alto para abafa-la. As mulheres pensam que é empolgação e me dão a maior corda. O pior é que estou ficando fraco, de falar e de fome. Será que ninguém come nessa casa? Agora sei porque a mão da mulher é tão magrinha.

Não aguento mais. Estou até meio tremulo. Diminuo o ritimo.
Minha participação na conversa vai diminuindo. Resume-se a um:
- É, concordo!

Minha barriga ronca cada vez mais alto. Mau suspiro. Minha participação na conversa é um leve sussurro.

- Hum, hum... Até parece que estou numa noite chuvosa morrendo de sono e fingindo que escuto Patrícia. O que a fome não faz...

Não tem jeito. Começo a cochilar. Também, se Com Patricia falando eu já durmo, imaginem ela com outra mulher faladeira...

Quando estou quase babando por cima do sofá, a mulher diz:

- Coitadinho, deve estar doente. Doente, eu! Dou um pulo. Vai que ela resolve me dar algum remédio.

- Oh! Desculpem, é que dormi pouco hoje. Patrícia me olha com a maior cara feia.
- Ah! Mais deixe eu lhes preparar um chazinho - diz a anfitriã levantando-se.
Até que enfim. Minhas esperanças renascem. Quem sabe tenha bolo, bolachas, queijos, doces...

- A culpa é tua que não me deixou dormir direito essa noite - digo.

A dona da casa aparece com a bandeja. Deposita-a suavemente sobre na mesinha da sala. Contém três xicarinhas minúsculas com um chá verde até a metade. Olho desconfiado, o liquido mais parece um remédio que um chá. Minha vontade é toma-lo de um só gole, minha especialidade, mas para não contrariar ainda mais minha esposa tomo-o aos golezinhos, como um passarinho. Não sei como é que consigo dividir aquela meia xicarinha em tantos goles.

O chazinho só veio mesmo é provocar ainda mais meu estômago, começa a roncar impiedoso, forte, quer comida a todo custo e urgente. Tenho que voltar a conversa mole dos hospitais para disfarçar.

A amiga de Patricia nos pergunta se os moleques não estão doentes. Porque os dela estão. Descreve ainda as doenças dos outros parentes. A do pai é tuberculose, a mãe é a coluna, a tia é sinusites. Desfila uma lista enorme de nomes. Em poucos minutos fico conhecendo o nome, sintomas e outras características de todas as doenças que existem e acho que mais algumas que ela inventa. Os hospitais então, conhece todos, sabe os nomes dos médicos, enfermeiras e de alguns, até das faxineiras, é uma verdadeira enciclopédia, possui conhecimentos e prática sobre o assunto que são capazes de causar inveja a qualquer médico.

Lá pelas tantas quando já estou de saco cheio de tanta conversa de doença, quando já estou me sentindo até meio contagiado ela diz:

- Oh, mais eu ia esquecendo, venham ver minha mãe. Arrasta-nos ao quarto da velha. 

Uma senhora ainda bem saudável está esticada em um leito antigo. Lê um livro. Não dá para ver o nome do livro, mas noto que tem uma cruz vermelha na capa. Ela nos cumprimenta com um sorriso desse tamanho. Parece muito feliz.

Igualzinha a filha. Fala-nos com muito orgulho de seu aparelho na coluna, dos hospitais que frequentou, dos médicos que a atenderam, dos remédios que tomou e por aí a fora. Estou quase ficando doente também, de tanto ouvir essa gente.
Já não aguento. Começo a olhar o relógio com insistência e cutuco Patrícia. Esta nem liga, parece satisfeita com as conversas de doenças.

- Vamos Patrícia - digo baixinho num descuido das doentes. Ela me da uma cotovelada das fortes.

- Vamos Patrícia - digo alto já sem nenhuma cerimonia.

- Oh! Mas é cedo, vocês não podem ir agora, meu pai o que está com tuberculose está para chegar e gostaria muito de conhecer vocês. Essa não. Nesse ponto é que digo com a maior cara de pau.

- Oh! Desculpem, eu adoraria conhecer seu pai, mas é que hoje meu médico me faz visita para ver minha perna, que anda bastante mal.

- Ah! bem, sendo assim, médico é médico, nos compreendemos .
Despedimo-nos rapidamente. Arrasto Patrícia na maior corrida. Quando estamos na calçada, quase esbarramos em um velho que tosse alto com a mão na boca. É o tuberculoso que está chegando. Escapamos na horinha.

Comentários