Celso era louco por livros. O gosto pela literatura nascera ainda na adolescência quando lera Júlio Verne. Encantara-se com as aventuras narradas pelo grande escritor francês e desde então aprofundara-se nos vários géneros literários. Com o tempo, pegou um verdadeiro amor pela literatura. Encontrava nas estórias a beleza da vida, ou por outro lado; o cómico, a tragédia, o banal e o profundo, o bem e o mal. Penetrava nas estórias como ninguém. Viajava com os personagens alegrava-se e chorava. Passeava por lugares e vivia situações que só a imaginação pode criar. Disso tudo tirava conclusões para a vida. Considerava a literatura uma forma de vida oculta, a parte da existência real, mas uma verdadeira imitaçao da vida.
Quando tinha trinta e poucos anos, conhecia uma grande quantidade de escritores. Lia biografias, romances e poesias. Tinha em sua casa uma estante ocupando toda uma parede repleta de livros. Passou a admirar não apenas o conteúdo dos livros, mas seu formato, encadernação, os tipos de letras utilizadas, as ilustrações e o papel. Pegou gosto principalmente pelas edições antigas, bem elaboradas e com encadernações luxuosas. Possuía até mesmo alguns exemplares raros pelos quais pagara grandes somas.
Aos sábados, percorria as livrarias da cidade em busca de novidades. Cabe aqui mencionar que não comprava os lançamentos recentes, os conhecidos best-sellers, que numa semana aparecem e noutra são substituídos. Procurava clássicos, autores desconhecidos e sutilezas que só um amante dos livros pode perceber. Percorria também os sebos onde detinha-se horas seguidas examinando os diversos títulos.
Alias era nos sebos onde encontrava as peças mais interessantes. Alguns exemplares, apesar de bastante arruinados pelo tempo, eram verdadeiros tesouros, principalmente para um conhecedor como Celso.
Um dia, numa de suas andanças pela cidade, foi parar no bairro da Liberdade, tradicional reduto japonês de São Paulo. Ao caminhar por aquelas ruas enfeitadas com lanternas e ao ver os letreiros em japonês das grandes lojas, pareceu-lhe adentrar num outro mundo; exótico e desconhecido. Andou muito tempo admirando as pessoas e tudo o que por lá havia. Inevitavelmente foi parar numa livraria. Foi como achar um tesouro. Tudo era diferente, estranho, e os livros impossíveis de ler. Mesmo assim folheava-os com imensa curiosidade. Olhava as figuras, admirava as grandes letras vermelhas e ficava pensando no que significariam aquelas milhares de casinhas indefinidas que constituíam a escrita japonesa.
Um dia, estando numa das livrarias japonesas, descobriu um minúsculo livro encadernado em couro, cujas páginas, roídas nas pontas já estavam amareladas pelo tempo. O livro era fino, tinha apenas algumas páginas e em cada uma somente algumas letras enormes na cor vermelha. Celso sentiu-se imediatamente atraído pelo livro; mas como decifra-lo? Perguntou a vendedora que, por ter olhos esticados, pareceu-lhe que fosse japonesa. Esta, folheou o livro rapidamente mas não conseguiu entende-lo. Passou-o então a um homem elegante aparentando ser dono da loja. Este, folheou o livro rapidamente de trás para frente e exclamou:
- Oh! Isto! - E deu uma risadinha meio económica como fazem os japoneses:
- Ih! Ih! Ih!
Passou Celso e o livro para um respeitável encião de bigodinho e barba rala no fundo da loja.
- Oh! Isto? - Disse o velho após folhear o livro com atençao e deu a mesma risadinha: -Ih! Ih! Ih!
- Acompanhe-me por favor - disse o velho levando Celso pela mão como se este fosse uma criança.
Desceram por uma escadinha de madeira nos fundos e foram sair num amplo salão familiar onde algumas senhoras idosas e alguns homens de várias idades tomavam chá meio ajoelhados em frente a uma mesa rente ao chão.
Quando entraram todos se curvaram até ao chão, que aliás já estava bem próximo de suas cabeças, depois o ancião começou a falar muito rapidamente com palavras curtas, econômicas em japonês. Passou-lhes o pequeno livro. O livro andou de mão em mão e aqueles que abriam logo exclamavam:
- Oh! Isto? – Ih! Ih! Ih!
Logo a sala inteira pronunciava baixinho em coro quase como numa oração:
- Ih! Ih! Ih!
As mulheres colocavam a mão na boca como que envergonhadas mas não deixavam de rir: - Ih! Ih! Ih!
Todos olhavam para Celso, inclinavam-se até ao chão como que pedindo desculpas e: -Ih! Ih! Ih!
- Mas afinal, ninguém vai traduzir isto para mim? - Perguntou ele.
- Primeiro compra o livro né? - Disse o ancião com cara irritada voltando a sentar-se em seu lugar com ar de importante.
Celso então comprou o livro pelo qual pagou uma fortuna. Em seguida voltou-se para o engravatado que parecia ser o dono:
- O senhor podia...
- Não fala português, não fala português... cortou este rapidamente com cara de poucos amigos.
Celso ainda tentou a balconista.
- Eu muito ocupada e não leio japonês.
Sem outra alternativa retirou-se com o livro debaixo do braço.
Em casa, sob a luz do abajur e na quietude da noite ele examinava novamente o livrinho. Era uma obra prima da encadernação.
A capa de couro marrom, tinha em relevo na parte de trás, que em nos livros japoneses e a capa da frente, enormes letras japonesas. Dentro, as folhas eram quase como papel de seda mas não chegavam a ser transparentes. As letras eram enormes em cor vermelha e ocupavam quase toda a página. Eram ainda, ornamentadas com desenhos geométricos e caprichosas linhas entrelaçadas nas cores verdes e pretas.
Mas afinal o que significavam? Pensava Celso. Depois de muito pensar no caso, lembrou-se que na faculdade havia um professor de literatura, por sinal muito bom, que era japonês. No dia seguinte Celso leovuo o livrinho consigo.
O professor era uma pessoa bastante ocupada, pois ao que parece exercia outras funções. Assim não foi tarefa fácil marcar uma audiência com ele.
Finalmente, lá pelas quatro da tarde entrou na sala do professor. Este, com muita cerimonia, inclinou-se levemente e em seguida trancou a porta.
Sentado confortavelmente em seu escritório disse:
- Então moço, em que posso servi-lhe?
- E apenas um pequeno favor - disse Celso desembrulhando o livrinho. - Gostaria que o senhor me dicesse do que trata este livro. E entregou-lhe o livro.
O professor, cujo nome era Yoche, Guiroche, Hiroche ou algo assim; pegou de cima da mesa seus grossos óculos, encaixou-os meticulosamente entre os olhos e pos-se a contemplar demoradamente a capa do livrinho.
Depois de uns minutos, que para Celso pareceram uma eternidade abriu o livro de trás para frente. Demorou-se vários minutos em silêncio como em êxtase contemplando as grandes letras vermelhas, finalmente virou a página. Nesta, demorou-se ainda mais... Eram minutos que pareciam horas. Não se mexia um milímetro. Dava a impressão que nem respirava. Se não fosse os óculos era uma perfeita estátua do Buda. De repente, rápido como um raio exclamou:
- Oh! Isto? – Ih! Ih! Ih! - levantou-se rápido entregou o livro ainda aberto e saiu apresado sem nem ao menos despedir-se.
Quem desce a Rua Quintino Bocaiuva em direção à Rua Direita, se olhar para cima, do lado direito, vê uma pequena placa na altura da sobreloja onde se lê: " Traduções: Inglês, Francês, Alemão e Japonês".
Celso subiu decidido. Como era uma firma especializada em traduções, seria impossível haver qualquer tipo de brincadeiras ou descanso, pensava.
- Normalmente não traduzimos livros, mas como são apenas umas poucas páginas abriremos uma exceção - disse a recepcionista.
Celso voltou para casa satisfeito. Finalmente teria uma tradução completa do livrinho. Conheceria o mistério das letras vermelhas e ficaria sabendo porque o mesmo despertara a mesma atitude em tantas pessoas.
Morria de impaciência. Passava os dias contando as horas. Não via a hora de ir retirar o livro junto com as folhas de tradução.
Quem pensa que Celso é desses intelectuais excêntricos e solitários que circulam pelas livrarias das grandes cidades, está enganado. Não tinha muitos amigos, mas os poucos que tinha eram extremamente fiéis.
Sabendo de sua aventura com o livro, a maioria morria de curiosidade para saber no que daria aquilo tudo.
Otávio, uma espécie de musico e colecionador de discos dos Beatles foi quem teve a ideia de se reunirem em seu apartamento para o desfecho ou leitura da tradução do afamado livrinho. No dia marcado, encontravam-se lá também um antiquário amador de nome Júlio e Ana C... um sobrenome muito difícil de se pronunciar e escrever.
Quando Celso regressou do centro trazendo debaixo do braço o grande envelope marrom contendo a tradução a expectativa era grande.
Todos reuniram-se em volta do envelope. Os comentários eram os mais variados. Havia quem arriscasse tratar-se de uma fórmula mágica do sorriso. Outros afirmavam que era um segredo ou um enigma japonês.
- Abre você - disse Celso entregando o envelope à Ana. Esta começou a rasgar devagarinho a beirada do papel. A expectativa era geral. A primeira coisa que ela retirou do envelope foi o famoso livro. Depois foi puxando as folhas de papel timbrado uma a uma e depositando-as sobre a mesa.
Celso pegou na primeira folha:
- Atenção vou ler. - Todos silenciaram.
- Tradução da capa: "Oh! Isto?"
- Tradução da página um: "Oh! Isto? “ Página dois: "Oh! Isto?" - Página três "Oh! Isto?"
-Ih! Ih! Ih! - fizeram seus amigos em coro.
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