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O MOINHO


A casa era linda. Um desses casarões em estilo holandês, com lareira, soltãos e amplos jardins. A frente descascada e embranquisada pelo tempo dava uma ideia da antiguidade da residência. As janelas altas e retangulares lembravam igrejas. O silêncio e a paz que a construção inspiravam eram de certa forma assustadores. Um tapete de poeira tomava conta de todos os cómodos e as aranhas fizeram de cada esquina sua residência. Saindo-se pela porta dos fundos, avistava-se o amplo quintal cercado de arame e invadido pelo mato. Mais ao fundo via-se uma fonte de aguas límpidas que escorria de um amontoado de pedras lisas e em forma de moinho de vento. A agua escorria pelo quintal e formava um pequeno lago onde moravam sapos e nadavam patos da vizinhança. Foi nessa casa que me instalei com a família na esperança de encontrar ali um refugio onde pudesse em paz, escrever meus livros.

Depois de alguns dias na nova residência, nos acostumamos. Para mim era um paraiso. O silêncio era interrompido apenas pelas brincadeiras das crianças e dos animais. Os vizinhos mais próximos moravam a uns três quilômetros. Enfim eu poderia concentrar-me para escrever meus livros. Eu sempre culpara a cidade grande como causa de meu fracasso como escritor. Agora não tenho a minha costumeira desculpa, tinha que me tornar um escritor. Nos primeiros meses, tudo era esperança e prosperidade. As hortaliças crescendo no quintal e as folhas de originais aumentando em minha gaveta. Acostumei-me a viver como coruja, sempre no mais alto sótão escrevendo e resmungando. La de cima avistava a esposa sempre com uma vassoura na mão, as crianças, que são em grande número, sempre se lambuzando no lago e o velho jeep enferrujando por falta de uso. Eu também me considerava aposentado e quase inútil se não fosse a ideia de ser um grande escritor. Mas o tempo foi passando. As hortaliças cresceram, a esposa e as crianças se acostumaram e o velho jeep enferrujou completamente. E eu, nada de tornar-me um escritor. Ao contrário, sentia-me cada dia mais fracassado. Muitas vezes, metia os originais numa pasta e partia à capital em busca de editores. Voltava sempre com o fracasso nas costas. Houve uma época em que me encontrava realmente no auge da crise. Vivia então trancado no sótão. O prato que minha companheira levava, voltava quase sempre intacto. A barba embaraçada e suja, os cabelos em desalinho e um rosto magro e ossudo era a minha imagem. As coisas estavam assim quando os papéis começaram a desaparecer estranhamente. Era eu escrever algo que julgava ser uma grande estória e logo não sabia mais onde encontra-la. A única coisa que ainda me distraia um pouco era ver la de cima as crianças brincando inocentemente. Nestas observações, notei um dia que as pedras da fonte tinham sido arrumadas de tal forma que apresentavam a quase perfeita silhueta de moinho de vento. Desci de meu esconderijo e disse aos meninos que não brincassem com aquelas pedras lisas. Eles me disseram que nunca haviam movido uma só pedra na fonte e pegando em uma das pedras constatei que as mesmas eram muito pesadas para eles. Logo esqueci o problema do moinho e voltei aos meus escritos inúteis.

A situação piorava dia a dia. O dinheiro que recebia de minhas rendas da cidade, mal dava para viver. Minha esposa, antes gordinha, agora se apresentava magra e nervosa. As crianças de olhos tristonhos e fundos se comoviam. Os cães mostravam as costelas como um pente e o gato há muito desertara. Mas eu continuava obstinado e minha vontade de férrea de escrever um livro. Perdi a conta das gavetas que enchi de papéis e das editoras que visitei inutilmente. Em todo aquele cenário de tristeza havia apenas duas coisas que não mostravam o menor sinal de pobreza. Era a horta com suas verdes hortaliças e o moinho de pedras que já tinha a aparência quase completa de um típico moinho holandês.

A situação estava nesse ponto, quando numa noite chuvosa eu e minha esposa fazíamos contas na cozinha, e já planejávamos regressar a cidade quando alguém bateu fortemente à porta. Quando abri deparei-me com um velhinho magro e encharcado. Usava uma muleta de lado e uma roupa um tanto passada de moda. Foi logo dizendo em péssimo Português num sotaque que não consegui identificar:

- Boa noite, perdoe-me em incomodá-lo. Estava regressando à vila quando este temporal me pegou.

- Pois não, entre e fique a vontade. - Disse eu - passando o ancião para dentro.

Logo sentou-se e, diante duma fumegante xicara de café, começamos a conversar. Depois de falarmos do tempo e de outras banalidades ele me perguntou:

- E o que e que o senhor faz aqui neste fim de mundo?

- Bem, no memento estou escrevendo. Estou tentando publi car um livro.

- Oh, mas que coincidência extraordinária - continuou ele

- Eu moro aqui há muito tempo e conheço a história de toda esta região. E imagine o Senhor, que esta velha casa foi construída justamente por um escritor. - disse ele arregalando uns olhos embranquisados.

- Eu não sabia, é realmente uma coincidência interessante.

- Mas se o Senhor me der licença eu conto toda a história do construtor desta casa - disse quase com insistência. E assim começou um relato que durou quase toda a noite. Depois de algum tempo, minha esposa retirou-se sonolenta. Eu segui atentamente cada detalhe de uma história interessante e cheia de surpresas. Começava na Holanda há mais de um século e vinha terminar nesta mesma casa onde estávamos. O personagem era um homem que se julgava escritor mas que nunca tivera um trabalho publicado. Depois de muitas aventuras e fracassos, construíra a casa como seu ultimo refúgio. Depois disso, sonhava apenas com a publicação de suas memórias e com a construção de um moinho holandês para recorda-lhe a pátria para onde jamais voltaria. Entretanto seus últimos sonhos foram interrompidos pela morte repentina.

Eu segui as palavras do ancião com atenção e uma estranha emoção súbita. A chuva virara tempestade na escuridão da noite. Já era madrugada quando o velho terminou o relato com um longo suspiro. Repentinamente a chuva sessou e o silêncio tomou conta de nós.

Nesse instante, o ancião levantou-se ofegante e disse:

- Bem meu amigo, já é hora de partir.

- Fique até ao amanhecer. Veja se estas são horas de se andar pelas estradas l - insisti. Mas ele parecia resoluto. Quando já estava à porta eu disse:

- Eu gostaria muito de escrever está história, isto é, se o senhor me permitir, naturalmente.

- Mas é claro, pode escrever. Nessa vida tudo é permitido. Só não se pode permitir que o moinho da vida termine, pois ai será o fim de tudo.

Depois destas palavras das quais nada entendi no momento, ele partiu. Ao distanciar-se, virou-se e por primeira vez lhe vi um sorriso.

No dia seguinte amanheci com uma disposição enorme e contentissimo apesar da noite mau dormida. Sentia-me leve com o vento. Era como se algo dentro de mim despertara para a vida. Em vez da minha costumeira cara de coruja, até tomei café e brinquei com os meninos. Em seguida, corri ao meu refúgio no sótão.

Passei todo o dia batendo escrevendo a história que me contara o velhinho. Sentia uma sensação estranha; pela primeira vez eu via tudo claro e me sentia completamente seguro ao escrever. Criar era parte integrante do meu ser, e o teclado fazia parte do meu corpo.

Ao anoitecer encontrei-me diante de um maço de papel que bem daria um romance. Depois de três dias com alguns acertos finais, meti toda a papelada na pasta e parti à cidade.

Entrei numa das editoras que tantas vezes me recusara. Depois de uma olhada geral e muita conversa resolveram analisar mais detalhadamente o meu trabalho. Poucos dias depois recebi uma carta onde me comunicavam que meu trabalho seria publicado.

Quando os primeiros volumes sairam na praça, o sucesso foi total. Dentro de pouco tempo choviam cartas e propostas tentadoras. Os pacatos moradores da vila cercavam-me de atenções e gentilezas. Logo vieram as conferências e entrevistas aos jornais e televisão. Não havia dúvida, tornara-me um grande escritor.

Vivia num paraíso. Sentia-me completamente realizado. Foram impressos várias outras edições e os direitos autorais foram comprados por vários países. Em casa rapidamente tudo se transformava. O velho jeep enferrujou e em seu lugar andava um carrão ultimo tipo. A esposa, agora elegante e feliz. As crianças com seus brinquedos nunca sonhados. O quintal virou mata de hortaliças. O moinho de pedras estava quase completo.

Foi então que, ambicioso como sou, resolvi procurar o velho que me dera o sucesso. Não para agradecer-lhe, mas possivelmente para pedir-lhe outra história. Indaguei em toda a redondeza, mas ninguém mostrou conhecer tal pessoa. Até que um dia, quando já perdera a esperança de encontrar o ancião, conversei com um holandês dono de um mercado, que foi logo me dizendo depois de ouvir meu relato:

- Impossível! A única pessoa que usou muletas nesta vila e que coincide com a sua descrição, foi um velho holandês louco que morou aqui há muitos anos. E aliás foi o construtor da casa onde você mora. Mas esse velho já morreu há muitos anos.

Um calafrio me gelou o estômago. Sai confuso e com a cabeça girando. Corri para casa. Ao chegar, fui logo ver de perto o tal moinho. Então compreendi as últimas palavras do ancião. Eu inocentemente havia publicado o seu livro e agora poderia prever o que aconteceria quando o moinho de pedras estivesse completo. Assustado, pensei logo que o melhor seria estar longe dali quando o moinho terminasse.

Rapidamente e amedrontados arrumamos nossa mudança e partimos da casa das fontes.

Depois do sucesso da história do holandês, nunca mais tive êxito como escritor. Em vão tentei publicar outros livros. A pequena fortuna que adquiri com o livro sumiu pouco a pouco e misteriosamente. Agora me encontro na completa miséria. De tudo, só restou esta história que, como todos os meus escritos, não chegará a obter nenhum sucesso.

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