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INCIDENTE NO ÔNIBUS


Preparou a papelada, deu um retoque no cabelo diante do espelho e ensaiou novamente as vantagens da maquinaria; "Senhores, o grande desempenho produtivo, a velocidade, o perfeito acabamento..." Estava particularmente sem inspiração naquele dia. 

De toda maneira já havia escrito numa folha tudo o que haveria de dizer aos futuros clientes. A reunião estava marcada para as dez horas. As doze, seria o almoço e novos e importantes contatos. Outro retoque no cabelo e; "Senhores o desempenho e a rotatividade"... 

O nervosismo o dominava. Era um representante experiente. Já fizera importantes transações, mas era a primeira vez em que se preparava para um negocio realmente importante. Se as vendas se realizassem, em apenas um mês receberia o equivalente a um ano na prática de vendas, além de que ganharia a possibilidade de uma indicação para a chefia de vendas. 

Vestiu o terno cinza com qual se sentia tão a vontade, verificou novamente os catálogos e partiu. Na rua tomou um ônibus que conduziria durante quase uma hora até o seu destino. Acomodou-se junto à janela. 

Os prédios molhados, a multidão aglomerada nos pontos e o trânsito movimentado desfilavam na janela. Em seu pensamento a preocupação e o nervosismo. Para distrair-se retirou de sua elegante pasta de couro marrom um livro e, iniciava sua leitura salvadora com a qual tantas vezes se acalmara, quando um indivíduo sentou-se a seu lado. Mas sentou-se com tanta força que ele foi atirado para cima e sua papelada esparramou-se. Os catálogos misturaram-se com pedaços de seus escritos literários, receitas médicas e outros vários papéis que carregava. 

Em seguida, o recém chegado ergueu-se de um golpe e escancarou a janela do ônibus com as duas mãos. Num segundo o pobre vendedor viu seu penteado de horas diante do espelho desfazer-se na fúria da ventania. 

Ficou parecendo um pássaro molhado com os cabelos esvoaçando em todas as direções. O mesmo acontecia com seus papéis que saíram voando por todo o ônibus. Mesmo com o vento zunindo em suas orelhas, procurou voltar a sua leitura. Em vão; o sujeito deu de procurar não sei quê dentro de um saco de papel com tanta fúria que o chiado não o deixava em paz. Virou-se para o tal para ver do que se tratava. 

Era um sujeito forte, todo de branco, óculos escuros e uma cabeleira semelhante a juba de um leão. Finalmente encontrou o que procurava. Um objeto com um cabo de madeira e umas pontas de arame em tudo igual ao tridente de netuno. Pensou que fosse espetá-lo com aquele garfo, mas o que fez foi pentear-se ou melhor, arrepiar-se, pois metia o tridente por entre os cabelos e estirava-os para cima.

Finalmente, feito o penteado, que o vento com toda fúria não conseguia mover um só fio, mirou-se num espelho que havia no cabo do garfo, deu ainda alguns retoques e sossegou. 

O vendedor abriu novamente o livro. Nessa altura da viagem, ouviu a voz de menino Ia no fundo do ônibus que lia seu discurso de vendas; "Senhores a rotatividade e o desempenho" ... Virou-se surpreso e deu-se conta de que toda sua papelada andava voando por baixo dos assentos com aquela ventania toda. Tentou novamente distrair-se com o livro, Qual nada. 

Seu vizinho estirou os joelhos para o assento da frente numa posição semi deitado e começou a folhear um jornal, cada vez que virava a página, além do ruido irritante, metade do jornal caia justamente sobre o livro do outro cobrindo sua leitura salvadora que não passará do título. E o pior de tudo é que o indivíduo não ficava um só instante numa única pagina. Virava e revirava o maldito jornal. 

Por essa altura dos acontecimentos, o vendedor já estava roxo de raiva. Lá pelas tantas, quando sua raiva estava no auge e se encontrava a ponto de cometer um desatino, ele fechou o jornal. Reclinou-se ainda mais no assento e começou a mascar chicletes. Depois de uns minutos atirou-o pela janela. Com a ventania que entrava a bolota voltou e caiu no livro do vendedor. Este, apanhou com nojo aquela pelota fedida e atirou-a à rua. 

O veículo serpenteava pelas ruas estreitas numa monotonia incrível. O vizinho dormia sossegadamente. Mesmo dormindo causava dissabores. Tinha as pernas abertas com a enorme cocha encostada às pernas do vendedor. Este, espremia-se o mais que podia a um canto. Sentia um calor insuportável e por mais que se encolhese, não conseguia fugir daquela enorme perna bolofa e quente. No mais profundo sono, começou a roncar quase tão alto quanto o ruído do ônibus. 

Permanecia com a bocarra aberta. Um enorme dente de ouro brilhava. Pouco a pouco foi inclinando a cabeça até deposita-la confortavelmente no ombro de seu vizinho. Este, sentiu que alguns piolhos pulavam daquela selva mal cheirosa para seus finos cabelos. De soslaio, percebia que as pessoas olhavam aquela cena e cochichavam. Suava frio sem saber o que fazer. 

Para cúmulo dos azares, o ônibus entrou numa avenida congestionada e passou a trafegar numa lentidão insuportável. Depois de muito tempo, quando o vendedor já não suportava o peso daquela cabeçorra, o outro acordou. Bocejou tão alto que até o motorista virou-se assustado para ver o que acontecia. Depois, sentou-se na posição normal e começou a coçar-se com fúria. Se isso não bastasse, abaixou-se e tirou os sapatos. Foi nesse momento que o vendedor fugiu. 

Abandonou a papelada e correu para frente. Ficou em pé junto a porta fingindo que procurava o ponto onde descer. Ficou nessa posição incomoda durante muito tempo, ainda mais agravada pelo fato de ser o único passageiro em pé havendo um lugar disponível. Todos o observavam. Quando o veículo começou a correr novamente, o sujeito levantou-se e dirigiu-se a porta. Ao passar pelo vendedor, errou o lugar onde ia segurar e pousou sua mão enorme na mão do outro. Depois, puxou a campainha com tanta força que até o condutor virou-se alarmado. 

Desceu e perdeu-se na multidão. Quando o vendedor desceu em frente ao imponente edifício onde realizaria seus negócios, encontrava-se desanimado e desalinhado, com uma terrível impressão de sujeira. 

Parecia-lhe sentir ainda o odor daquela bola de chicletes, o movimento dos piolhos em sua cabeça e o calor da cabeça de seu vizinho de viagem. O que mais lhe atormentava era a lembrança do enorme dente de ouro brilhando. A reunião foi um fracasso. Sentia-se confuso, as palavras não saiam. Esquecera-se de todos os detalhes da maquinaria. Perderá os catalogos e o discurso. Finalmente quando tudo aquilo acabou, retirou-se humilhado. Na rua, tomou um ônibus de regresso à casa. 

O que mais desejava era tomar um banho e esquecer aquele dia terrivel. Sentou-se ao lado de uma jovem. Entretanto logo esta desceu do veiculo. Encontrava-se novamente encostado a um canto. Já se dispusera a distrair-se olhando o movimento alegre das ruas quando o ônibus parou em um ponto. Pela janela viu a correr para a porta de entrada o mesmo indivíduo da viagem anterior. Agarrou as pressas seus pertences e correu pelo ônibus esbarrando nas pessoas. Pulou para fora já com o veiculo em movimento e refugiou-se em meio a multidão. Dizem que desde aquele dia nunca mais tomou ônibus. Receia encontrar novamente seu companheiro de viagem.

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