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ÍNDICE GERAL

Apresentação Sempre gostei muito de ler. Quem gosta de ler geralmente também gosta de escrever. Esse é o meu caso. Costumo ler uma média de quatro a cinco livros por mês. Quanto a escrita, desde jovem que escrevo. Passei vários anos escrevendo coisas muito técnicas ligadas ao rádio. Mesmo assim, naquela época, sempre escrevia algum conto ou alguma crônica. Atualmente não escrevo mais nada técnico. Escrevo artigos sobre defesa dos animais, mais por gosto. Quanto a literatura, tenho vários escritos, que vão desde contos até uma autobiografia chamada “Memórias de um Radioescuta”. Como durante as aulas, sou professor, sempre surgiam alunos querendo ler algo do que escrevo, descobri que o Blogger ensina a montar um livro. Assim, achei que este seria um meio mais fácil para quem desejar conhecer meu trabalho neste campo. Leonardo Bezerra UNSO DE CELULAR NO METRÔ COISAS ENGRAÇADAS NO METRÔ A FOME A CHUVA O MENINO O INIMIGO O ENÍGMA JAPONÊS MANIA DE DOENÇA A ÚLTIMA CASA A FILA INCIDE...

A CHUVA

A chuva começa às nove da noite. Ainda bem que as crianças já estão dormindo. Quando ia começar um filme na TV, acabou a energia elétrica. Patrícia se agarra a mim e subimos aos tropeções pelas escadas escuras. Pulamos na cama. A chuva é forte. Castiga a janela com violência. Ouço o som do vendaval que dobra as árvores lá fora. O clarão dos raios penetra no quarto como se as janelas e as cortinas de nada servissem. Os trovões são assustadores. Até eu que adoro chuva, estou com certo receio. Patrícia, que é medrosa, está tremendo agarrada a mim. - Calma Patrícia, é só uma chuva. - lhe digo. - É melhor eu ir lá embaixo buscar uma vela. - Não, eu não fico só nesse escuro. - responde ela. - Você fechou a porta? - pergunta enquanto se agarra ainda mais forte a mim. - Fechei Patrícia, fechei. - Você amarrou o cachorro na casinha? - Claro Patrícia. - E o gato, ficou dentro? - Ficou Patrícia. - Chí! - Que foi Patrícia. - Esquecemos de por os patos dentro da garagem. - Não tem importância Patrí...

O MENINO

Foi lá pelas dez horas que notaram a presença do menino no escritório. Estava em pé, do lado da maquina de xerox. Fazia um aviãozinho de papel. -De quem é este menino? - Perguntou Jorge lá do fundo da sala. O barulhinho monótono dos computadores interrompeu-se por um momento e todos olharam. Tinha uns quatro ou cinco anos. Franzino, olhos grandes e um cabelinho loiro repartido ao meio. Vestia uma calça listrada e camiseta estampada, tênis branco meio gasto nas pontas. Como ninguém respondeu Kátia arriscou: - Deve ser da faxineira - e reafirmou com seriedade: - E só pode ser da faxineira. - Não sei quem é que permite que tragam moleques aqui, vai ver que logo começa a aprontar - emendou Flávio lá de um canto com cara de nervosinho. - Contando que ele não toque em meus papéis... - acrescentou José, cuja mesa era a mais próxima do menino. - É, um moleque desses deve aprontar mil diabruras se não tiver alguém por perto - afirmou Jorge. - Concordo; não deviam deixar entrar esses per...

O INIMIGO

Ha mais de ano ele me persegue. Na primeira vez que nos encontramos ele me pediu para que fizéssemos juntos uma reflexão sobre tudo o que estava acontecendo em minha vida. Era meia noite. Bar deserto, só eu lá no fundo em meio as garrafas. Foi quando ele chegou. Aproveitou-se de minha embriaguês para dizer-me a verdade. Sou um inútil. Tudo vai mal comigo. Desencontro e tragédia, são pálavras constantes em minha mente. Sinto o gosto amargo da solidão em cada esquina. Olho as ruas desertas. Tudo esta deserto, minha vida esta deserta. Quanto tempo faz que não sinto o calor de uma mão, o tremular de olhos que procuram os meus ou a suavidade de uns lábios de mulher envoltos em mistério, em encantos, em passe de magica, quando fechamos os olhos e só sentimos aquele tremular, gostinho meio salgado do mar, pedaço de manjar do céu. Há quanto tempo não rio até sair lágrimas, até rolar pelo chão em cumplicidade com alguém, já não tenho com quem falar de coisas banais, do vento, da chuva, história...

O ENÍGMA JAPONÊS

Celso era louco por livros. O gosto pela literatura nascera ainda na adolescência quando lera Júlio Verne. Encantara-se com as aventuras narradas pelo grande escritor francês e desde então aprofundara-se nos vários géneros literários. Com o tempo, pegou um verdadeiro amor pela literatura. Encontrava nas estórias a beleza da vida, ou por outro lado; o cómico, a tragédia, o banal e o profundo, o bem e o mal. Penetrava nas estórias como ninguém. Viajava com os personagens alegrava-se e chorava. Passeava por lugares e vivia situações que só a imaginação pode criar. Disso tudo tirava conclusões para a vida. Considerava a literatura uma forma de vida oculta, a parte da existência real, mas uma verdadeira imitaçao da vida. Quando tinha trinta e poucos anos, conhecia uma grande quantidade de escritores. Lia biografias, romances e poesias. Tinha em sua casa uma estante ocupando toda uma parede repleta de livros. Passou a admirar não apenas o conteúdo dos livros, mas seu formato, encadernação...

MANIA DE DOENÇA

A Patrícia foi quem insistiu para que viéssemos visitar uma de suas amigas. Por mim, eu ficava em casa dormindo, mas como numa noite romântica e calma depois de uns tragos eu lhe prometi o céu e as estrelas, acho que fazer-lhe um pequeno gosto como lhe dar um carro ou vir visitar sua amiga não é nada demais. O pior é que essa gente só vive doente. Tem mania de doença e isso me da aflição. Não é que eu não goste de doença... Uma doençinha de leve até que vai bem, principalmente lá em casa onde tenho uma cama confortável e uma enfermeira linda que me cobre de cuidados, que vão desde sopinha na boca até beijos. Mas esse pessoal aqui é mesmo da pesada. Doença aqui é rotina e cemitério é seu grande sonho. Interrompo meus pensamentos. Chegamos. Pátricia aperta a campainha. Ninguém atende. - Aperta com mais força Patrícia. Nada. - Vai ver que morreram todos - digo. Patrícia faz cara feia e aperta novamente. Sua amiga abre a porta. - Desculpem a demora, é que eu estava na cama, ando meio d...

A ÚLTIMA CASA

Hoje visitei minha nova casa, que será a última. É bem pequena na verdade. Paredes brancas, jardins floridos na frente, árvores dos lados, crianças correndo no quintal e muita paz. Daqui ouve-se o murmúrio do mar, ou percebe-se o silêncio total. Vê-se as estrelas, ou a escuridão da noite. Aqui tudo é possível, tudo é grandioso, diferente. Vê-se as coisas por outro ângulo. O tato é diferente. Não só se sente, mas se penetra , se amplia, se aprofunda. A visão deixa de ser finita. Vai muito mais além. Penetra no sol, atravessa cada grão de areia e percorre todos os cantos do universo. Nada mais pode se ocultar.  Para viver nesse lugar vale a pena deixar tudo. Abandono a família, os amigos e inimigos. Deixo para trás todos os lábios que beijei. Todos os olhares, todas as palavras que disse e as que fiquei por dizer. Todos os apertos de mão, todas as carícias que tive e as que sonhei.  Só quero estar aqui, preso entre quatro paredes, único caminho para a eternidade. Chega fina...